08 fevereiro, 2010

O exemplo mora ao lado

Outro dia, saindo do prédio, o síndico me pegou de surpresa.  “Você recicla seu lixo?”  Espanei: “Claro!”  Era uma redonda e vergonhosa mentira.  Ele só queria indicar o local do lixo convencional.  E eu, já afundada na lama.  Podia ter argumentado que havia me mudado recentemente, não conhecia bem o bairro, que a falta de carro difi cultava transportar os recicláveis.  Tudo desculpas.  Não, eu não reciclo meu lixo!  Não parece tão difícil confessar essa simples verdade.  Mas, naquele momento, foi.  Fui impelida a mentir para meu novo vizinho, um ilustre desconhecido, quiçá ele mesmo um não reciclador, um consumidor de mogno, um matador de focas marinhas.

O que me conforta é saber que não estou sozinha.  E que reações patéticas como a minha vêm inspirando novas estratégias ambientalistas.  Elas se baseiam na economia behaviorista, que parte do seguinte pressuposto: o ser humano é complexo, e adota muitas vezes determinados comportamentos que fogem da escolha racional preconizada pelas leis econômicas tradicionais, da busca pela opção que maximize o interesse próprio.

Muitos instrumentos motivadores de mudanças comportamentais baseiam-se na racionalidade econômica.  A comercialização de créditos de carbono, por exemplo: se proteger a floresta é lucrativo, é o que eu vou fazer.  Mas tem comportamentos que fogem desse tipo de escolha.  Também fazemos coisas irracionais do ponto de vista estritamente econômico, como arriscar a vida para salvar da morte um estranho na rua.  Ou – menos altruístico mas tão irracional quanto – agir apenas para impressionar nossos vizinhos. 

O psicólogo comportamental Roberto Cialdini, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, colocou pequenas mensagens em quartos de hotel para checar o quanto elas infl uenciariam os hóspedes a reusarem ou não suas toalhas antes de considerá-las sujas.  Mensagens dizendo que reusar as toalhas era bom para o meio ambiente não tiveram praticamente nenhum impacto sobre os hóspedes.  Mas quando ele alterou a mensagem para algo como “a maioria dos hóspedes deste quarto reutilizou a toalha pelo menos uma vez durante a estadia”, o número de pessoas que passou a reusá-las aumentou em expressivos 30%.

Segundo ele, a reação remonta a um instinto de sobrevivência, a um comportamento quase involuntário, de querer compartilhar das mesmas situações e comportamentos das pessoas parecidas conosco, da mesma forma que pássaros buscam seu bando ou abelhas um enxame.

Em outra pesquisa, ele enviou pequenas mensagens na conta de luz de quatro grupos distintos de residências de um bairro americano.  Cada uma incentivava a redução no consumo por uma razão diferente: pelo bem do planeta, pela qualidade de vida das futuras gerações, para economizar dinheiro, e pelo fato de que, comparado a seus vizinhos, quem recebia a correspondência podia ser um gastador.  Apenas o último grupo reduziu efetivamente seu consumo – em 10%.

O pesquisador foi até chamado a apresentar os resultados da pesquisa perante o Congresso americano, interessado em formas inovadoras de desestimular exageros no consumo energético.  E virou sócio de uma empresa cujos clientes são de diferentes distribuidoras de energia e gás americanas.  O que eles oferecem é de uma singeleza chocante: contas simples de ler e com informações sobre o consumo de cada cliente em comparação com seus vizinhos de perfi l parecido.  Resultados vêm mostrando redução de 3% a 6% no consumo, dependendo da região onde o programa se instalou.

Dois conceitos permeiam essa descoberta.  O “paternalismo liberal” defendido por Richard Thaler e Cass Sunstein, dois professores da Universidade de Chicago, sugere que o Estado deve dar um "empurrãozinho" (nudge, em inglês) para que a população tome melhores decisões, por meio da maior disponibilização– ou cuidadosa seleção – de informações.

Para eles, essa “arquitetura da escolha” não afetaria a liberdade individual, apenas auxiliaria na busca por mais racionalidade nas decisões.  Exemplos dessa arquitetura são a ordem em que os objetos são exibidos nas prateleiras ou a força da inércia na decisão de ser um doador de órgãos – em vez de ter de escolher ser um doador, o indivíduo tem de escolher não ser um doador.  Manipulação ou não da informação, o fato é que muitas vezes funciona.

É claro que essas estratégias não são mágicas e têm efeito limitado.  Uma boa tecnologia de energia alternativa vale mais que contas com mensagens provocantes.  Mas, na urgência de mudanças, tudo vale a pena.  Sabe aquela ladainha da sua mãe, de dar o exemplo?  Ela tinha razão.  Eu, do meu lado, entrei em 2010 reciclando todo o meu lixo – um pouco também na torcida de que meu vizinho esteja lendo esta coluna.
(publicado originalmente na Revista Página 22 - www.pagina22.com.br

02 julho, 2009

Quem fala demais?

“Parar de falar.”  O post-it grudado no meu computador tenta me lembrar, diariamente, dessa missão quase impossível. Dizem que falar muito é característica inerente às mulheres. Os homens são mais quietos, sóbrios. Na infância, minha mãe era a falante da casa, e, por conta disso, muitas vezes a falastrona. Meu pai, não. Discreto, quando abria a boca, lá íamos nós, os filhos, ouvir Sua Santidade, o Papai. Chuto que falar pouco é quase uma estratégia de marketing masculina, uma forma de dar peso maior ao que será dito.

Mas nem sempre as mulheres têm a chance de exercer seu direito de falar demais. Há alguns anos participei de um curso pela Fundação Heinrich Böll, em Berlim, sobre “Gênero, Agricultura e Desenvolvimento”. Durante dez dias, 60 mulheres de variadas nacionalidades discutiram a relação da mulher com a produção agrícola, seu papel no desenvolvimento familiar e comunitário, e as questões intrínsecas ao tema: preconceito, desigualdade e redução de oportunidades para as mulheres em grande parte do mundo – especialmente o rural.

Conheci angolanas que não tinham direito à terra herdada dos pais, por serem mulheres. Três representantes da Indonésia tinham vivido ou presenciado tantos abusos, que não se relacionavam nem se dirigiam mais aos homens. Era um desprezo construído menos pelos seus desejos e opções sexuais, e mais por décadas de opressão e violência.

Mas, no meio daquela legião de mulheres fortes e indignadas, saltava aos olhos a presença de três homens.  Um indiano radicado em Londres, um israelense e um nigeriano faziam parte da turma. Tive imediatamente simpatia por aqueles três exemplares do sexo oposto, demonstrando interesse para com a “nossa” causa.  Estava curiosa para ouvi-los, saber suas histórias, conhecer a trajetória de sua militância.

Mas o mundo é muito mais complicado. No primeiro dia, depois de uma intervenção do rapaz da Índia – um homossexual assumido, se é que isso vem ao caso -, uma mulher pediu a palavra e sugeriu que, durante o evento, os homens participantes não tivessem o direito de falar. Nem de fazer perguntas, nem de participar das discussões.

Deveriam ser meros espectadores. Comecei a rir, achando a ideia absurda. Mas o que se deu em seguida foi inesperado para mim. Cerca de metade das participantes concordou com a proposta. O argumento essencial era este: a desigualdade faz com que homens sejam mais preparados, articulados, e tenham maior facilidade para exprimir suas opiniões. Tanto sua eloquência como a ideia da sociedade machista de que “eles sabem mais” acabaria por intimidar muitas das mulheres dali, reproduzindo a opressão “da vida real”.

O clima esquentou.  Algumas mulheres gritavam: “Não tem lugar para vocês aqui!” Uma delas sugeriu uma votação: quem era a favor de que os três homens não falassem durante todo o curso que levantasse a mão.  No final, os ânimos foram acalmados e as organizadoras convenceram a todas de que aqueles homens tinham sido selecionados para estarem ali e tinham direito de participar.

O que se seguiu nos outros nove dias não foi surpresa. Nem sequer ouvi a voz do agricultor israelense.  Conheci o nigeriano fora da sala de aula, uma pessoa doce, simpática e extremamente engajada na causa das mulheres. Mas ele não se pronunciava durante as aulas. O indiano, mais indignado, fez discursos inflamados nos dias seguintes, interrompia intervenções de outras participantes e perdeu a simpatia de todos.

Conviver com aquelas mulheres foi um aprendizado, acostumada que estava a preconceitos mais velados, como ganharmos salários menores que homens, ou até anedóticos, como meu pai nunca ter trocado uma fralda dos filhos, mesmo minha mãe trabalhando fora tanto quanto ele.  Em muitas partes do mundo, as mulheres ainda sofrem preconceitos muito mais dramáticos, vinculados a violações diárias de direitos universais. Fácil entender atitudes tão radicais contra o sexo masculino.

Foi Rui Barbosa quem disse: “Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”.  Ele falava da tal equidade.  Sempre tão oprimidas, talvez naquela situação as mulheres precisassem oprimir seu opressor para garantir voz.  Mas o desconforto de como tratamos aqueles três homens bateu forte em mim.

Um desfecho cômico para um assunto difícil. No meio do evento, tivemos um problema com o data show que projetava as palestras. Primeiro, a palestrante tentou resolver o problema.  Depois a organizadora foi lá, e nada.  Aos poucos, as participantes mais “tecnológicas” desciam da plenária, cada uma tentando fazer a máquina funcionar. Após meia hora de tentativas, a organizadora chamou por telefone alguém para ajudar.

Entra no auditório um rapaz, óculos fundo de garrafa, mirradinho. Olha em volta, um pouco acuado. Sobe ao palco, aperta um único botão do data show e voilà, como mágica o troço volta a projetar.  Eu, que perco o amigo, mas não perco a piada, soltei: “E não é que eles, os homens, servem pra alguma coisa?!”  Só metade da plateia riu.
(publicado originalmente na Revista Página 22 - www.pagina22.com.br

08 junho, 2009

Não aguento mais rúcula

Uma das coisas que credito à globalização – e sou grata a ela – é a combinação rúcula-tomate seco-muzzarela de búfala. O trio é banal hoje em dia. Você encontra os ingredientes em qualquer mercado e no cardápio de todo restaurante.  Mas quem tem mais de 30 anos deve lembrar: quando éramos crianças, esses ingredientes não existiam nos supermercados.  Tínhamos nossas alfaces, mas nada equiparado à rúcula.  Tínhamos nossos tomates, mas nada igual ao tomate seco.  O mundo globalizado colocou em nossa mesa a mesma comida dos pequenos vilarejos italianos.  Mas não necessariamente diversificou nosso cardápio.

A ideia de que só a agricultura industrial poderia dar conta de alimentar o planeta todo é um dos grandes mitos da globalização.  Seus defensores idolatram o avanço tecnológico da produção alimentícia em grande escala, que soube superar as limitações relacionadas às estações do ano, às localidades geográficas, aos riscos de pragas.  O resultado?  Você pode comprar sua rúcula em qualquer lugar, em qualquer época do ano.  O problema?  Ai de você se bater uma saudade das alfaces de antigamente.  Daqui a pouco, elas não existirão mais.

A variedade conhecida no Brasil como “alface americana”, famosa pela sua absoluta falta de sabor na minha humilde opinião, foi responsável na última década por mais de 70% de toda a produção de alface nos Estados Unidos.  No percurso, os americanos extinguiram uma centena de outras variedades, de amargas a doces, de roxaescuras a verde-claras.  O mesmo acontece com as maçãs.  Graças aos processos industriais, temos hoje acesso às maçãs vermelhas americanas o ano todo.  Mas o preço foi alto.  Não se encontram mais os milhares de variedades que existiam até o século passado.  Apenas duas variedades são responsáveis por mais de 50% do mercado americano.

Quem levanta esses dados é Andrew Kimbrell, organizador do livro Fatal Harvest, que acusa a monocultura da agricultura industrial de ter reduzido a diversidade natural de praticamente toda produção agrícola em termos de tamanho, cor e sabor.  De novo, resgatemos a memória dos trintões.  Nós chegamos a conhecer o sabor verdadeiro dos morangos, pequenos e feios nas prateleiras.  Hoje, o morango é igual em todo o lugar: tamanho acintoso, brilho ofuscante, sabor medíocre.

A limitação trazida pela agricultura industrial globalizada não é apenas ruim para nosso cardápio.  Ela reduz as escolhas das futuras gerações. Recentemente o jornal The New York Times relatou a expedição do cientista Andrey Sabitov à uma remota ilha na Rússia. Um lugar inóspito e frio.
Depois de três dias de caminhada, ele atingiu o vulcão Atsonupuri, para encontrar o que foi buscar: o morango silvestre Fragaria iturupensis, uma variedade não domesticada, parte de um esforço internacional de proteção de sementes ligado às preocupações com as mudanças climáticas.  O aquecimento global, as secas e o aumento da salinidade das águas devem extinguir muitas variedades agrícolas.

Uma operação importante, portanto, é salvar sementes de variedades com maior potencial de sobreviver às alterações climáticas. E adivinhe. Frequentemente, as variedades selvagens mostram muito mais adaptabilidade do que as domesticadas.

COLORIDO SEM GRAÇA O problema é que, no passo que estamos, as variedades simplesmente não existirão para contar a sua história. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que no último século perdemos 75% de toda a diversidade genética agrícola mundial. Segundo pesquisa da Rural Advancement Foundation International, em apenas 80 anos – entre 1903 e 1983 - os inventários de estoques de sementes diminuíram vertiginosamente. Perdemos 96% das variedades de milho, 95% das variedades de tomates e 98% da variedades de aspargos.

Por isso, a paisagem do supermercado é traiçoeira. Aquele colorido todo não representa, na prática, tanta diversidade. A indústria alimentícia aperfeiçoou-se em variações sobre os mesmos temas: milho, soja, trigo e arroz.  Dois terços de todas as calorias ingeridas pelo homem vêm deles. É uma simplificação radical das potencialidades da alimentação. Mas a matemática serve ao mundo moderno. Temos hoje variedade apenas dos alimentos que atingiram em escala mundial eficiência na plantação, colheita, distribuição e embalagem. E é possível contar nas mãos as empresas detentoras das marcas.

O ciclo é vicioso. Grandes empresas atingem um nível de distribuição em escala mundial que atende as grandes redes de supermercado, que, por sua vez, facilitam o trabalho das compras dos restaurantes.  Alimentos mais regionais, peculiares e menos eficientes, não chegam às prateleiras. Comprar de pequenos agricultores dá trabalho, custa mais caro e impõe riscos. Mas o consumidor agradece.  Acredite. Pode chegar o dia em que você, assim como eu, não vai mais aguentar rúcula.
(publicado originalmente na Revista Página 22 - www.pagina22.com.br)

02 maio, 2009

A ciência e o biquíni

Cara: vai chover e ficamos em casa. Coroa: vai fazer sol e vamos para a praia.”  Era assim que um amigo de juventude lidava com qualquer decisão. Almoçaremos hambúrguer ou caqui?  Para a gripe, sorvete ou chá quente?  Tudo era sorteado, para o Bem ou para o Mal.  Escondidos atrás do véu da ignorância, conferíamos a responsabilidade das nossas ações à moedinha de cruzeiro. Bons tempos.

Conforme crescemos, os dilemas tornam-se mais complicados e as decisões mais difíceis. E a maturidade nos exige fundamentar decisões em avaliações criteriosas, baseadas em evidências, relações causa-efeito, especialização do conhecimento. Com vocês, a moeda de um lado só: a ciência.

Hoje, a meteorologia é quem define meu fim de semana, pois, afinal, tem gente contando os cumulus nimbus só para sinalizar se vou poder pegar um bronze em Ubatuba. Nas refeições, sou obrigada a escolher o caqui, porque alguém se deu ao trabalho de calcular as calorias pornográficas do saudoso hambúrguer. E sorvete gripada? Faça-me o favor!

Eles estão por aí, observando, fazendo experimentos, colhendo números. Os cientistas são incansáveis em sua jornada para nos revelar a Verdade. Graças a eles, sabemos que o planeta é redondo e que o céu não vai cair sobre nossas cabeças.  Devemos a eles a sabedoria de que basta uma gotinha na infância para evitar a paralisia no adulto.

Por causa deles, somos capazes de – quase sempre – fugir de uma cidade antes de um terremoto, de saber que comer algo estragado nos mata, de entender que precisamos perdoar nossos pais para amar nossos pares. Mas se a pesquisa científica pode servir de orientação, algumas vezes mais complica que esclarece.  Em uma semana eu tomo um cálice de vinho para evitar ataque cardíaco, na outra me martirizo, pois aquele mesmo cálice aumenta minhas chances de morrer de cirrose.

E na sustentabilidade é igual.  Parar de consumir carne ou soja?  Neutralizar as emissões do meu carro dá no mesmo que andar de bicicleta? A energia de hidrelétricas é melhor que a nuclear? Mais uma vez os cientistas estão lá, prontos para nos confundir. Nas prateleiras da academia, tem prova para tudo: basta escolher o que melhor lhe apetece. A verdade inconveniente é que, perante tais impasses, você terá de fazer escolhas, baseadas em seus valores e ideais, porque a ciência, meu caro, nem sempre vai ajudá-lo.

Se em muitos assuntos cabeludos ainda não há consenso, na questão do aquecimento global a confusão é pouca. Há pesquisas abundantes e evidências suficientes para deixar claro o perigo que estamos correndo. Qualquer pesquisa provando o contrário é olhada com desconfiança. Ainda assim, na ânsia de publicar pesquisas inéditas e na sede por novas descobertas, às vezes os cientistas se perdem.

Recentemente, acusaram o Google de ser um dos grandes vilões das emissões do planeta. Segundo o pesquisador Alex Wissner-Gross, da Universidade Harvard, o gigante da internet consome energia demais para oferecer aos internautas seu consagrado sistema de busca.  O próprio Google achou que precisava responder à crítica, passando a anunciar que cada busca em seu site produz apenas 0,2 grama de carbono na atmosfera, e não os 7 gramas calculados pela pesquisa.  E aí, você que não fez nem mestrado nem nada se pergunta: não seria muito pior se eu tivesse de pegar o carro e ir até uma biblioteca?

Outras vezes, as pesquisas vão longe demais – ou de menos -, especialmente as que se baseiam em estatísticas. Estudo publicado em abril pelo renomado International Journal of Epidemiology acusa os obesos de emitirem mais carbono que os magros. Altas taxas de obesidade em países ricos causariam toneladas extras de emissões de gases de efeito estufa em comparação com países com populações mais magras.

No modelo, os cientistas compararam uma população “magra”, de 1 bilhão de pessoas, com distribuição de peso equivalente a um país como o Vietnã, a uma população “gorda”, tal como a dos EUA, da qual cerca de 40% é obesa.  A população “gorda” precisaria de 19% mais energia proveniente de alimentos, além de maior uso do automóvel, considerando o maior esforço para transportar o próprio corpo.

Na estimativa, calculou-se que as emissões de gases de efeito estufa da produção de alimentos e transporte para o bilhão de pessoas mais gordas ficariam entre 400 milhões e 1 bilhão de toneladas extras por ano. Se comparado com o total de emissões globais de 27 bilhões em 2004, é um valor expressivo. Para os cientistas, a descoberta é “preocupante”.  E enfatizam que, a partir de agora, ser magro não é apenas bom para sua saúde – também é melhor para o planeta.

Mas as nações mais ricas consomem mais de tudo, não apenas comida.  Tem o automóvel, a TV de plasma… Não bastaria só restringir o a sobremesa dos obesos. Seria necessário uma dieta do consumo. Algo como: a partir de segunda-feira não vou mais trocar de carro todo ano! Ou seja, o buraco é mais embaixo.

As pesquisas acadêmicas nutrem a sociedade de informações e reflexões. A produção científica é um dos grandes indicadores de desenvolvimento de um país e alavancador de oportunidades.  Mas cuidado para não comprar tudo que se apresenta. É como aquela piada. Algumas vezes, a pesquisa científica é como o biquíni: mostra tudo, mas esconde o essencial.
(publicado originalmente na Revista Página 22 - www.pagina22.com.br

06 março, 2009

A batalha desleal entre um corvo e 150 pokémons

Vivo recentemente um dos muitos dilemmas da maternidade: proibir ou não a televisão para meu filho pequeno.  Mas, ao liberar – em doses homeopáticas – seu acesso à TV, eu me depareicom uma situação peculiar.  Tendo à sua disposição coelhos “fofinhos” pulando freneticamente para cima e para baixo no programa infantil Bunnyworld, ou podendo acompanhar o Mickey num mundo mais colorido que loja de tintas, meu filhote praticamente exige que a telinha esteja sempre ligada no canal Animal Planet.

É difícil acreditar que do alto de seus 2 anos de vida ele esteja tão interessado nos chimpanzés que vivem em cativeiro, ou no estômago invertido do bicho-preguiça, ou naquele inseto albino africano. Mas o fato é que o pequeno não desgruda os olhos desses bichos todos.  Não sei se a TV é o ópio do povo, mas, ao menos lá em casa, o Animal Planet dá barato.

Não é novidade o interesse provocado por imagens de natureza.  Nossas primeiras palavras estão invariavelmente associadas a um animal, mesmo nos bebês urbanos – ou vai me dizer que au-au não está entre as dez primeiras palavras pronunciadas pelo seu filho?  A fascinação – de grandes e pequenos – por animais e plantas tem até explicação científica: a biofilia.  Formulada pelo biólogo Edward Wilson, seria uma ligação emocional cravada em nossos genes e transmitida pela história evolucionária da nossa relação íntima e dependente com outros seres vivos.  Para alguns, a afinidade incluiria também a natureza não-viva, como rios e montanhas.

Eu gosto de pensar que meu menino, efemeramente preservado de videogames, orkuts e afins, tem um interesse adquirido de forma ancestral pelo ambiente natural.  Mas essa “sina” hereditária por si só não garante que ele seja um conservacionista no futuro.

Uma das atividades marcantes da minha época de faculdade foi levar crianças pré-adolescentes ao Vale do Ribeira.  Elas enlouqueciam ao entrar numa caverna, com lama e água até a cintura.  Sempre pensei que aquela experiência dramática, de escuro e frio, de adrenalina e medo, dizia mais que mil palavras sobre a preservação das cavernas.

Pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, investigaram 2 mil americanos para entender a relação entre experiências infantis na natureza e comportamentos ambientalistas dos futuros adultos.  E descobriram que o envolvimento de determinada criança com a natureza “selvagem” – por meio de caminhadas pelas florestas, campings e contato com animais – teve um efeito positivo e significativo em sua relação com o meio ambiente na vida adulta.  Ou seja, é a sensibilidade “construída” à base de experiências no mundo natural que poderiam influenciar para valer atitudes voltadas para a conservação.

Se as trajetórias pessoais moldam aquilo que um dia poderia nos ter sido “inato”, a industrialização e a urbanização, ao restringir nossas interações diretas com a natureza, podem desviar o caminho dos ambientalistas de amanhã.

Uma pesquisa feita pela entidade britânica National Trust revelou que as crianças de hoje passam tanto tempo trancadas em casa que o mundo natural se tornou algo estranho a elas.  Um terço das crianças entre 10 e 12 anos que participaram da pesquisa não foicapaz de identificar um corvo, o pássaro mais comum da Grã-Bretanha.  Metade não soube diferenciar uma abelha de uma vespa.  Entretanto, nove entre dez crianças foram capazes de identificar o personagem Yoda, da série Guerra nas Estrelas.

Outra pesquisa, realizada pela Universidade de Cambridge e publicada na revista Science, investigou o conhecimento de crianças de 4 a 11 anos sobre plantas e mamíferos e “espécies” do desenho Pokémon.  A identificação de espécies do mundo natural foi baixa e cresceu de 32% aos 4 anos para 53% aos 8 anos.  Já a identificação de Pokémons – que incluía observar dez cartões randomicamente selecionados em uma base de 150 “espécies”!  - disparou, de 7% em crianças de 4 anos para 78% nas de 8 anos.
A pesquisa evidencia que crianças têm uma capacidade admirável de aprender sobre “criaturas”, naturais ou não.  Mas, por terem poucas oportunidades de conhecer espécies reais, elas acabam desviando sua atenção para as virtuais, mais presentes em seu dia-a-dia.

Se as crianças têm um gosto inato de estarem próximas da natureza, deveríamos envolvê-las mais em estratégias inovadoras de aprendizado.  Ajudá-las a construir, valendo-se do inato, uma trajetória de envolvimento e respeito pelo mundo natural.  De minha parte, adoro o mestre Yoda e acho que, assim como os chimpanzés e os corvos, ele pode e deve fazer parte do universo do meu filho.  Mas, enquanto não o levo às cavernas do Ribeira, não há mais dilema: vou lá ligar o Animal Planet.
(publicado originalmente na Revista Página 22 - www.pagina22.com.br)

10 outubro, 2008

O País na moda

“O Brasil é o país do futuro!”, diz, entusiasmada, uma amiga americana que mora na Suíça, namora uma italiana, faz doutorado em mudanças climáticas, cultiva uma horta e iniciou um projeto pessoal de não consumir nada novo durante um ano inteiro.  Ela pensa em mudar de país, mas ainda está indecisa entre São Paulo, Nova Délhi ou Pequim.

Vejo o mesmo entusiasmo nos europeus, que me consideram interessante e sortuda, apenas pelo meu passaporte.  Para além da paixão pelas Havaianas e pelas cores verde e amarela, nosso país não é mais associado apenas ao trio violência-futebolcarnaval.

A violência continua presente no imaginário dos gringos – e na dura realidade dos brasileiros -, mas o Brasil é cada vez mais visto como integrante da tal da aldeia global, um país onde as pessoas sonham em morar, onde as coisas acontecem, um país exciting.  Nas palavras da minha amiga globalizada, um país “na moda”.

GINCANA DA POBREZA De cara desconfio, pois já vi entusiasmos semelhantes.  Quando comecei meu mestrado aqui na Inglaterra, imaginei que os cursos mais concorridos do departamento de Desenvolvimento da London Schoolof Economics fossem sobre política econômica internacional, ou meio ambiente e desenvolvimento, ou sobre pobreza e desigualdade social.  Afinal, são estes os temas cruciais ligados aos países em desenvolvimento, certo?  Errado.  Puro amadorismo.  O curso com lista de espera e estudantes disputando a tapa uma vaga era o de Complex Emergencies (Emergências Complexas).  E lá se iam, europeus e americanos, ávidos em conhecer estratégias para se lidar com as guerras na África, os tsunamis na Ásia, os contaminados de Bhopal.  Entre os alunos havia um certo clima de “competição” pela experiência mais difícil, mais “Terceiro Mundo”: “Eu morei durante um ano em um acampamento de refugiados em Ruanda”.  “E eu recolhicorpos nas ruas de Phuket”.  “Mas eu carreguei nas costas mulheres sem pernas, das minas no Camboja”.

É admirável ver jovens curiosos em conhecer – e enfrentar – uma realidade tão diferente da deles.  Mas faz pensar.  Quando se buscam experiências de vida tão dramáticas como se fossem um esporte radical, alguma coisa está errada.  Para aqueles alunos, os problemas crônicos dos países em desenvolvimento não inspiravam tanto.  Eles não enxergavam em um gigante emergente como o Brasil, por exemplo, um país todo de emergências.

Nosso tsunami é anual, seja pela fome, seja pela violência.  Nossos refugiados abrigam- se em seus acampamentos, à espera de terra para plantar, para viver.  Nossos “bhopalenses” perdem seus rios e florestas pela contaminação da soja, da pecuária, da indústria.  São tragédias que se arrastam por anos, décadas.  Não trazem a adrenalina da urgência, mas a solidão de gerações de abandono.  E, nas regras da atração do Terceiro Mundo, isso valia pouco.  O Brasil não tinha vez.

A TERRA PROMETIDA Mas agora o país está “na moda”.  Parte do entusiasmo pode ser o bom e velho fascínio pelo novo, pelo diferente, pela sede de emoções.  Mas outra parte do encanto mais recente dos meus colegas estrangeiros, ansiosos em “experimentar” o País, pode dizer algo interessante para nós, brasileiros.

Talvez os jovens americanos e europeus, especialmente aqueles preocupados com um futuro melhor – mais justo e mais verde -, enxerguem no Brasilo que eles não mais encontram em sua terra natal: a chance de viver em um país em franca construção, com oportunidades para seguir um caminho novo, diferente do trilhado pela geração de seus pais e de seus países.  A possibilidade de “fazer melhor”.

Se a intenção é fazer melhor, o Brasil pode mesmo sair na frente.  Em edição recente, a revista The Economist elogiou os avanços nacionais na educação, na geração de emprego formal e na redução da desigualdade.  Para a revista, pouco afeita a exageros, o País apresenta desempenho social melhor que seus pares China e Índia.  Ao que se acrescenta uma democracia mais sólida e estável, em paz com seus vizinhos, além de uma sociedade civilorganizada, tanto na esfera social como na ambiental.

Claro que o Brasil está longe de corresponder ao retrato – por vezes reducionista – da revista inglesa.  Ainda temos uma sociedade indecentemente desigual, problemas ambientais graves e um crescimento baseado muito no desenvolvimentismo dos anos 70 e pouco na sustentabilidade exigida para o novo século.

Ainda há muito por fazer.  E, no caminho, as idéias ufanistas do passado não nos ajudam.  O Brasil não é “o país do futuro”.  Não somos a Terra Prometida.  Deus não é brasileiro.  Mas meus amigos gringos e a The Economist podem estar corretos em sinalizar, cada um a seu jeito, que o Brasil atual apresenta algumas oportunidades reais de se fazer diferente, de se fazer melhor.

Não somos “a Terra Prometida”, mas talvez sejamos um país que promete.  Não somos “o” país do futuro, mas tem muita gente apostando no futuro do Brasil.
(publicado originalmente na Revista Página 22 - www.pagina22.com.br

01 setembro, 2008

Um lugar na Terra

O mundo está ficando cada vez mais complicado, especialmente para quem anda preocupado com o mundo.  O aquecimento global, grande desafio da atualidade, escancara a responsabilidade de cada um em relação às mudanças climáticas.  Na tentativa de redimir nossa parcela de culpa e, quem sabe, assegurar um lugar no céu, o mercado nos dá uma mãozinha.

Esqueça a loira de curvas acentuadas. Na Inglaterra, o apelo dos novos anúncios de carros é estampar a quantidade de carbono que tal modelo emite em comparação com os concorrentes, ou detalhar as vantagens dos novos híbridos.  Para os carros grandes e potentes, campeões de emissões, é oferecido um “acessório” aos consumidores potencialmente – ou pretensamente – conscientes: as emissões dos primeiros x mil quilômetros são compensadas pela montadora.

Ou seja, alguém, em algum lugar, recebe dinheiro para não emitir carbono. E as indulgências que o mercado oferece não param por aí.  Vai passar o fim de semana em Barcelona?  Na British Airways,basta um clique, 5 libras a menos em sua conta, e pronto – você está absolvido!  É possível também compensar as emissões da sua nova prancha de surf, do seu tratamento dentário e até de um ente querido que morreu, com a “redenção” retroativa de uma vida inteira de pecados carbônicos.

A Carbon Neutral (www.carbonneutral.com) oferece uma lista de casamento inusitada: você escolhe a árvore que quer plantar na “floresta” dos noivos.  E que tal presentear um amigo com um “vale-dia de carbono neutro”?  Ele ganha o “certificado” de que, em tal dia, todas suas emissões terão sido compensadas. Graças a você.

O controverso filósofo esloveno Slavoj Zizek chama a sociedade atual de “descafeinada”, em alusão ao fato de que tiramos dos produtos que consumimos suas substâncias nocivas, para seguir consumindo – livres de pecado – o café sem cafeína, o creme de leite sem gordura, a cerveja sem álcool.

Para Zizek, a “crença descafeinada” não ofende ninguém e nem mesmo precisamos estar totalmente comprometidos com ela. “Não se trata mais da antiga noção de medida certa entre prazer e temperança, mas a coisa que é prejudicial já deve conter em si o remédio para os males que causa.
Não nos dizem mais ‘beba café, mas com moderação’, agora é ‘beba todo o café que quiser, pois o café já está descafeinado’”, escreve o filósofo.  Tal comportamento nos permitiria seguir vivendo a vida que desejamos, sem incorporar as conseqüências negativas desse modo de vida.

O problema dos excessos do mercado de carbono passa não apenas pelo desestímulo a alterações mais profundas no nosso padrão de vida, mas também pelas incertezas enormes que o próprio mercado enfrenta – e que não necessariamente transmite ao consumidor.

Uma crítica inteligente – e bem-humorada – ao esquema de compensações de carbono pode ser encontrada no site CheatNeutral (www.cheatneutral.com). A página inicial resume o “serviço” oferecido: “Quando trai seu parceiro, você aumenta o ciúme e a dor na atmosfera. Mas você pode compensar sua infidelidade, financiando alguém a ser fiel e não trair. Assim, você neutraliza a infelicidade que levaria ao mundo e fica com a consciência tranqüila!” Além de uma grande brincadeira, o site é uma alfinetada, pois instiga paralelos entre os dois esquemas.

Primeiro, a existência de um esquema para compensar a infidelidade não só torna aceitável ser infiel, como pode incentivar as pessoas a trair mais em vez der buscar outras soluções para seu relacionamento afetivo.  Esquemas de compensação de carbono, além de tornarem “aceitável” emitir carbono, podem estimular os indivíduos a emitir mais em vez de buscar outros modos de vida e repensar sua relação com os combustíveis fósseis.

Em segundo lugar, compensar a infidelidade não reduz, na prática, a ocorrência de traições no mundo.  Mesmo que eu compense minhas emissões e alguém deixe de emitir carbono do outro lado do planeta, a atmosfera ainda estará recebendo gases de efeito estufa – a conta final não é zero.

Por fim, da mesma forma que é praticamente impossível quantificar o estrago e a dor que alguém traído sofre, há sérias divergências sobre as formas de calcular as emissões ou o seqüestro de carbono – especialmente aquelas decorrentes da plantação de árvores.

As críticas fazem pensar, mas uma coisa é certa: é melhor compensar do que ignorar nossas emissões.  Apesar das incertezas e dos abusos que cercam o mercado, o ato é relevante. Ações individuais, ainda que simbólicas, podem ser o motor propulsor para mudanças maiores, mais radicais e efetivas.  ”Às vezes precisamos agir como se nossas ações fossem fazer diferença, mesmo quando não sabemos ao certo se vão mesmo fazer”, diz Michael Pollan, colunista do jornal britânico The Guardian.

Para um desafio da proporção do aquecimento global, alterações no nosso estilo de vida fazem, sim, diferença.  Mas não podem se limitar a ações ao alcance de um clique e alguns trocados.  Elas passam por uma mudança de paradigma da sociedade, que só acontecerá com ações individuais intermediadas por muita reflexão, discussão e ações coletivas.  A mera compra de indulgências não nos redimirá de nossos “pecados”.  Muito menos garantirá nosso lugar na Terra.
(publicado originalmente na Revista Página 22 - www.pagina22.com.br